Modelo de Pequeno Porte do Banco Central em Python e exposto como MCP

O servidor MCP está no ar, é público e gratuito. Cole esta URL como conector personalizado no Claude (Configurações → Connectors) e peça “projete a inflação com a Selic a 12,5% e o câmbio a R$ 5,60”:
https://mpp-mcp.analisemacro.workers.dev/mcp
O passo a passo está na seção final desta página.
O problema
O Banco Central projeta a inflação com um conjunto de modelos. O mais transparente deles é o Modelo de Pequeno Porte (MPP): um modelo semiestrutural deliberadamente parcimonioso, cuja função é menos prever com máxima acurácia do que organizar de forma clara o raciocínio condicional que sustenta a decisão de política monetária.
O BCB publica a estrutura das equações nos boxes dos Relatórios de Inflação e, desde 2020, as tabelas de parâmetros estimados. Mas não publica o código nem a base de dados. Para quem quer usar o modelo — e não apenas ler suas projeções — isso é uma parede.
Este projeto atravessa essa parede: reconstrói o modelo em Python, mede o quão perto se chega das projeções oficiais, e expõe o motor como uma ferramenta que qualquer pessoa pode usar conversando com uma IA.
O modelo
Sete equações estimadas e treze identidades contábeis, em frequência trimestral.
| Bloco | Papel |
|---|---|
| Curva IS | Hiato do produto responde ao juro real |
| Curva de Phillips | Inflação de preços livres |
| Expectativas | Formação das expectativas de inflação |
| Regra de Taylor | Selic reage ao desvio das expectativas |
| Paridade de juros | Câmbio reage ao diferencial de juros |
| Preços administrados | Repasse do petróleo em reais |
| Sazonalidade | Dessazonalização dos preços livres |
O que distingue esta versão: Selic, câmbio e preços administrados são endógenos. Isso significa que o modelo os projeta sozinho, em vez de recebê-los como hipótese — e cria um bloco simultâneo dentro do trimestre, em que as expectativas dependem do hiato, o hiato do juro real, o juro real da Selic, a Selic das expectativas, e o câmbio do diferencial de juros.
A consequência econômica é direta: um aperto monetário passa a apreciar o câmbio, e a apreciação realimenta a inflação. O canal cambial de transmissão, ausente quando o câmbio é exógeno, torna-se operante.
A base é recoletada das fontes primárias — Banco Central, IBGE, FRED, NOAA —, o que torna o exercício atualizável: o modelo roda com os dados de hoje.
Os resultados
Validação econômica
O teste mais exigente disponível é comparar os multiplicadores do modelo com os que o Banco Central publica:
| Choque | Modelo | BCB (jun/2024) |
|---|---|---|
| Selic +1 p.p. por 4 trimestres | −0,37 p.p. | −0,27 p.p. |
| Depreciação cambial de 10% | +0,79 p.p. | +0,96 p.p. |
| Coeficiente de reação da Taylor | 1,66 | 1,30 – 2,03 |
O multiplicador de juros cerca a estimativa oficial, com o perfil temporal correto — resposta negativa, gradual, com pico no quinto trimestre. O coeficiente da regra de Taylor cai dentro da faixa publicada pelo BCB.
Comparação com as projeções oficiais
Confrontando com o Relatório de Política Monetária de junho de 2026:
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Erro absoluto médio (12 trimestres) | 0,47 p.p. |
| Diferença no primeiro trimestre | 0,03 p.p. |
| Viés médio | +0,21 p.p. |
E o resultado que mais importa: a projeção oficial do Banco Central situa-se dentro do leque estocástico do nosso modelo em todos os onze trimestres comparados — em sete deles, dentro da banda de 50% ou mais estreita. É o que a figura de capa mostra: a linha vermelha atravessa o interior do leque azul do começo ao fim.
As duas trajetórias não são, portanto, estatisticamente incompatíveis — apesar de os modelos subjacentes serem estruturalmente distintos.
As diferenças, que são o mais interessante
A divergência se concentra no horizonte distante e tem causas identificáveis: o modelo agregado não separa a inflação por setores, como faz o BCB; os preços administrados oficiais vêm de modelos específicos item a item; e o cenário do BCB supõe um fechamento do hiato do produto que o nosso não reproduz.
Nenhuma dessas diferenças é ruído. Todas apontam para componentes ausentes e nomeáveis — o que é, do ponto de vista de aprendizado, mais valioso que o acerto.
A distância honesta
Cabe uma ressalva, porque a tentação de apresentar o resultado como “a projeção do Banco Central” é real — e seria incorreto.
Este não é o modelo vigente do BCB. Em setembro de 2020 houve uma ruptura metodológica: o Banco Central passou a estimar o hiato do produto e o juro real neutro como variáveis latentes, com estimação bayesiana. O modelo aqui replicado pertence à linhagem anterior a essa ruptura.
Não estamos a alguns ajustes do modelo vigente — estamos do outro lado de uma mudança de paradigma econométrico. As projeções produzidas aqui não são as do Banco Central e não devem ser apresentadas como tais.
Dito isso, a aderência medida acima mostra que a linhagem replicada ainda captura bem o essencial do mecanismo de transmissão.
Usando o MCP
O motor do modelo está exposto como servidor MCP — o padrão aberto que permite a um assistente de IA chamar ferramentas externas. Na prática: você conversa com o Claude, informa as premissas, e ele devolve a projeção e o gráfico pronto para colar no relatório.
Sem MCP, se você pedir uma projeção de inflação ao Claude, ele responde com o que “lembra” — e pode inventar um número plausível. Com ele, o Claude roda o modelo de verdade e devolve o resultado.
Conectar
No Claude, vá em Configurações → Connectors → Adicionar conector personalizado e cole:
https://mpp-mcp.analisemacro.workers.dev/mcp
Se aparecerem quatro ferramentas com o prefixo mpp_, está funcionando. Não precisa de senha, cadastro nem instalação. O mesmo endereço funciona em qualquer cliente que fale MCP — Cursor, Codex, VS Code.
O que dá para pedir
Comece pelo simples, para ver o cenário de referência:
“O que o modelo de pequeno porte projeta para a inflação?”
Depois informe suas próprias hipóteses — que é o ponto do exercício:
“Projete a inflação supondo a Selic a 12,5% e o câmbio a R$ 5,60.”
“E se o petróleo subir para US$ 110 e o risco-país for a 220 pontos?”
“Faça a projeção com a Selic caindo gradualmente: 14, 13,5, 13, 12,5 e 12%.”
Note a última: quando você dá uma lista, cada valor vale para um trimestre. Um número único vale para todo o horizonte.
Para o gráfico:
“Faça um gráfico de leque dessa projeção.”
E para comparar cenários:
“Compare um cenário com a Selic a 14% contra outro a 11%.”
As premissas aceitas
| Premissa | Unidade |
|---|---|
| Selic | % ao ano |
| Câmbio | R\(/US\) |
| Petróleo Brent | US$/barril |
| Inflação americana | % no trimestre |
| Juro básico americano | % ao ano |
| Risco-país (CDS 5 anos) | pontos-base |
| Juro real neutro | % ao ano |
| Âncora de inflação de longo prazo | % |
| Pressão em cadeias globais | desvios-padrão |
| Oceanic Niño Index | °C |
Você não precisa decorar os nomes — basta descrever em português. O que não for informado segue o cenário de referência.
O detalhe que muda a interpretação
Este é o ponto mais importante para quem for usar.
Selic e câmbio são variáveis endógenas. Se você não informar nada, o modelo as projeta sozinho e elas aparecem como resultado. Quando você informa uma trajetória de Selic, está suspendendo a regra de Taylor: o que sai não é mais “o que o modelo prevê”, e sim “o que aconteceria com a inflação se a Selic seguisse esse caminho”.
A distinção importa na hora de comunicar. Um exemplo concreto: se você impuser uma Selic mais baixa do que a regra estimada recomendaria, o modelo devolve inflação mais alta e crescente — não porque esteja errado, mas porque você pediu exatamente isso.
Um roteiro de dez minutos
- “O que o modelo de pequeno porte projeta para a inflação?”
- “Me explica esse modelo e suas limitações.”
- “Projete com a Selic a 12,5% e o câmbio a R$ 5,60.”
- “Faça um gráfico de leque dessa projeção.”
- “Compare esse cenário com um de Selic a 15%.”
- “Por que a inflação sobe quando a Selic cai nesse modelo?”
A última pergunta é a mais interessante: o assistente consegue explicar o mecanismo de transmissão — juro real menor, hiato mais aberto, pressão na curva de Phillips — em vez de apenas repetir números.
Em breve
A reconstrução completa — a arqueologia das equações, a recuperação da base, a estimação e a validação, passo a passo — será material de um curso novo.
Se você trabalha com projeção macroeconômica e quer saber quando abrir, entre em contato.