Modelo de Pequeno Porte do Banco Central em Python e exposto como MCP

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O Banco Central publica a estrutura das equações do seu Modelo de Pequeno Porte, mas não o código nem a base. Reconstruímos o modelo em Python e comparamos com as projeções oficiais do Relatório de Política Monetária: erro absoluto médio de 0,47 p.p., com a projeção do BCB caindo dentro do leque do nosso modelo em todos os trimestres. O motor está exposto como servidor MCP — você informa as premissas conversando com a IA, ele devolve a projeção e o gráfico pronto.
Published

August 10, 2026

Leque de projeções do modelo replicado e a projeção oficial do Banco Central
TipExperimente agora

O servidor MCP está no ar, é público e gratuito. Cole esta URL como conector personalizado no Claude (Configurações → Connectors) e peça “projete a inflação com a Selic a 12,5% e o câmbio a R$ 5,60”:

https://mpp-mcp.analisemacro.workers.dev/mcp

O passo a passo está na seção final desta página.

O problema

O Banco Central projeta a inflação com um conjunto de modelos. O mais transparente deles é o Modelo de Pequeno Porte (MPP): um modelo semiestrutural deliberadamente parcimonioso, cuja função é menos prever com máxima acurácia do que organizar de forma clara o raciocínio condicional que sustenta a decisão de política monetária.

O BCB publica a estrutura das equações nos boxes dos Relatórios de Inflação e, desde 2020, as tabelas de parâmetros estimados. Mas não publica o código nem a base de dados. Para quem quer usar o modelo — e não apenas ler suas projeções — isso é uma parede.

Este projeto atravessa essa parede: reconstrói o modelo em Python, mede o quão perto se chega das projeções oficiais, e expõe o motor como uma ferramenta que qualquer pessoa pode usar conversando com uma IA.


O modelo

Sete equações estimadas e treze identidades contábeis, em frequência trimestral.

Bloco Papel
Curva IS Hiato do produto responde ao juro real
Curva de Phillips Inflação de preços livres
Expectativas Formação das expectativas de inflação
Regra de Taylor Selic reage ao desvio das expectativas
Paridade de juros Câmbio reage ao diferencial de juros
Preços administrados Repasse do petróleo em reais
Sazonalidade Dessazonalização dos preços livres

O que distingue esta versão: Selic, câmbio e preços administrados são endógenos. Isso significa que o modelo os projeta sozinho, em vez de recebê-los como hipótese — e cria um bloco simultâneo dentro do trimestre, em que as expectativas dependem do hiato, o hiato do juro real, o juro real da Selic, a Selic das expectativas, e o câmbio do diferencial de juros.

A consequência econômica é direta: um aperto monetário passa a apreciar o câmbio, e a apreciação realimenta a inflação. O canal cambial de transmissão, ausente quando o câmbio é exógeno, torna-se operante.

A base é recoletada das fontes primárias — Banco Central, IBGE, FRED, NOAA —, o que torna o exercício atualizável: o modelo roda com os dados de hoje.


Os resultados

Validação econômica

O teste mais exigente disponível é comparar os multiplicadores do modelo com os que o Banco Central publica:

Choque Modelo BCB (jun/2024)
Selic +1 p.p. por 4 trimestres −0,37 p.p. −0,27 p.p.
Depreciação cambial de 10% +0,79 p.p. +0,96 p.p.
Coeficiente de reação da Taylor 1,66 1,30 – 2,03

O multiplicador de juros cerca a estimativa oficial, com o perfil temporal correto — resposta negativa, gradual, com pico no quinto trimestre. O coeficiente da regra de Taylor cai dentro da faixa publicada pelo BCB.

Comparação com as projeções oficiais

Confrontando com o Relatório de Política Monetária de junho de 2026:

Métrica Valor
Erro absoluto médio (12 trimestres) 0,47 p.p.
Diferença no primeiro trimestre 0,03 p.p.
Viés médio +0,21 p.p.

E o resultado que mais importa: a projeção oficial do Banco Central situa-se dentro do leque estocástico do nosso modelo em todos os onze trimestres comparados — em sete deles, dentro da banda de 50% ou mais estreita. É o que a figura de capa mostra: a linha vermelha atravessa o interior do leque azul do começo ao fim.

As duas trajetórias não são, portanto, estatisticamente incompatíveis — apesar de os modelos subjacentes serem estruturalmente distintos.

As diferenças, que são o mais interessante

A divergência se concentra no horizonte distante e tem causas identificáveis: o modelo agregado não separa a inflação por setores, como faz o BCB; os preços administrados oficiais vêm de modelos específicos item a item; e o cenário do BCB supõe um fechamento do hiato do produto que o nosso não reproduz.

Nenhuma dessas diferenças é ruído. Todas apontam para componentes ausentes e nomeáveis — o que é, do ponto de vista de aprendizado, mais valioso que o acerto.


A distância honesta

Cabe uma ressalva, porque a tentação de apresentar o resultado como “a projeção do Banco Central” é real — e seria incorreto.

Este não é o modelo vigente do BCB. Em setembro de 2020 houve uma ruptura metodológica: o Banco Central passou a estimar o hiato do produto e o juro real neutro como variáveis latentes, com estimação bayesiana. O modelo aqui replicado pertence à linhagem anterior a essa ruptura.

Não estamos a alguns ajustes do modelo vigente — estamos do outro lado de uma mudança de paradigma econométrico. As projeções produzidas aqui não são as do Banco Central e não devem ser apresentadas como tais.

Dito isso, a aderência medida acima mostra que a linhagem replicada ainda captura bem o essencial do mecanismo de transmissão.


Usando o MCP

O motor do modelo está exposto como servidor MCP — o padrão aberto que permite a um assistente de IA chamar ferramentas externas. Na prática: você conversa com o Claude, informa as premissas, e ele devolve a projeção e o gráfico pronto para colar no relatório.

NotePor que isso importa

Sem MCP, se você pedir uma projeção de inflação ao Claude, ele responde com o que “lembra” — e pode inventar um número plausível. Com ele, o Claude roda o modelo de verdade e devolve o resultado.

Conectar

No Claude, vá em Configurações → Connectors → Adicionar conector personalizado e cole:

https://mpp-mcp.analisemacro.workers.dev/mcp

Se aparecerem quatro ferramentas com o prefixo mpp_, está funcionando. Não precisa de senha, cadastro nem instalação. O mesmo endereço funciona em qualquer cliente que fale MCP — Cursor, Codex, VS Code.

O que dá para pedir

Comece pelo simples, para ver o cenário de referência:

“O que o modelo de pequeno porte projeta para a inflação?”

Depois informe suas próprias hipóteses — que é o ponto do exercício:

“Projete a inflação supondo a Selic a 12,5% e o câmbio a R$ 5,60.”

“E se o petróleo subir para US$ 110 e o risco-país for a 220 pontos?”

“Faça a projeção com a Selic caindo gradualmente: 14, 13,5, 13, 12,5 e 12%.”

Note a última: quando você dá uma lista, cada valor vale para um trimestre. Um número único vale para todo o horizonte.

Para o gráfico:

“Faça um gráfico de leque dessa projeção.”

E para comparar cenários:

“Compare um cenário com a Selic a 14% contra outro a 11%.”

As premissas aceitas

Premissa Unidade
Selic % ao ano
Câmbio R\(/US\)
Petróleo Brent US$/barril
Inflação americana % no trimestre
Juro básico americano % ao ano
Risco-país (CDS 5 anos) pontos-base
Juro real neutro % ao ano
Âncora de inflação de longo prazo %
Pressão em cadeias globais desvios-padrão
Oceanic Niño Index °C

Você não precisa decorar os nomes — basta descrever em português. O que não for informado segue o cenário de referência.

O detalhe que muda a interpretação

Este é o ponto mais importante para quem for usar.

Selic e câmbio são variáveis endógenas. Se você não informar nada, o modelo as projeta sozinho e elas aparecem como resultado. Quando você informa uma trajetória de Selic, está suspendendo a regra de Taylor: o que sai não é mais “o que o modelo prevê”, e sim “o que aconteceria com a inflação se a Selic seguisse esse caminho”.

A distinção importa na hora de comunicar. Um exemplo concreto: se você impuser uma Selic mais baixa do que a regra estimada recomendaria, o modelo devolve inflação mais alta e crescente — não porque esteja errado, mas porque você pediu exatamente isso.

Um roteiro de dez minutos

  1. “O que o modelo de pequeno porte projeta para a inflação?”
  2. “Me explica esse modelo e suas limitações.”
  3. “Projete com a Selic a 12,5% e o câmbio a R$ 5,60.”
  4. “Faça um gráfico de leque dessa projeção.”
  5. “Compare esse cenário com um de Selic a 15%.”
  6. “Por que a inflação sobe quando a Selic cai nesse modelo?”

A última pergunta é a mais interessante: o assistente consegue explicar o mecanismo de transmissão — juro real menor, hiato mais aberto, pressão na curva de Phillips — em vez de apenas repetir números.


Em breve

A reconstrução completa — a arqueologia das equações, a recuperação da base, a estimação e a validação, passo a passo — será material de um curso novo.

Se você trabalha com projeção macroeconômica e quer saber quando abrir, entre em contato.